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Acesso de Jovens e Menores às Apostas em Portugal

Jovem com telemóvel sentado numa bancada de estádio de futebol vazio

Iniciativas Ativas Para Prevenção do Acesso de Menores

Joana Teixeira, presidente do ICAD, apresentou um dado que deveria ter gerado mais discussão do que gerou: 18% dos jovens entre 13 e 18 anos jogaram a dinheiro no último ano, segundo o estudo ECATD de 2024. Estamos a falar de menores. Estamos a falar de jogo a dinheiro. E estamos a falar de uma percentagem que, num contexto escolar, significa que em cada sala de aula há quatro ou cinco alunos que já apostaram.

Este não é um problema de legislação – é ilegal para menores apostar em Portugal, e as operadoras licenciadas são obrigadas a verificar a idade. É um problema de acesso. As plataformas ilegais não verificam idade. As redes sociais não filtram publicidade a apostas. E o telemóvel que todos os adolescentes têm no bolso é a porta de entrada para um mercado que não foi desenhado para eles.

Os Números – ECATD 2024 e Estudo BlindGame

O estudo ECATD 2024, realizado em contexto escolar, é a fonte mais directa sobre o comportamento de jogo dos jovens portugueses. Os 18% que jogaram a dinheiro no último ano incluem apostas desportivas, jogos de casino online e raspadinhas digitais – mas as apostas desportivas, pela sua associação directa com o futebol e com a cultura de adeptos, são a porta de entrada mais comum.

O estudo BlindGame, do Observatório Social da Fundação La Caixa, amplia o quadro: 68% dos jovens portugueses entre 15 e 34 anos já apostaram a dinheiro. Este dado, que abrange uma faixa etária mais ampla, confirma que o contacto precoce com as apostas é generalizado – e que a transição dos 17 para os 18 anos, onde a barreira legal se situa, não é uma barreira real para quem já tem o hábito formado.

A faixa etária dos 18 aos 24 anos representa 34,9% de todos os jogadores registados nas plataformas legais. São o grupo maioritário – e são também o grupo com maior exposição a publicidade de apostas nas redes sociais, com maior propensão para apostas impulsivas e com menor experiência para avaliar riscos financeiros. A combinação destes factores cria uma vulnerabilidade que os números confirmam mas que as políticas públicas ainda não abordam adequadamente.

Riscos Específicos Para Jovens Apostadores

O risco mais documentado é o desenvolvimento de padrões de jogo problemático em idade precoce. Pedro Hubert, director do Instituto de Apoio ao Jogador, tem identificado que a faixa etária do jogador patológico em Portugal anda entre os 23 e os 25 anos. Isto significa que a dependência se instala rapidamente após o acesso legal – e que o período entre os 18 e os 25 anos é o mais crítico para a formação de hábitos que podem tornar-se destrutivos.

O segundo risco é financeiro. Jovens que começam a apostar com o primeiro salário – ou, pior, com dinheiro de mesada ou empréstimos – não têm a maturidade financeira para absorver perdas. A gestão de banca, que para um apostador experiente é uma disciplina adquirida, é um conceito que a maioria dos jovens desconhece. Apostam tudo numa múltipla porque um influenciador do Instagram disse que era “aposta segura” – e quando perdem, não têm margem para absorver o impacto.

O terceiro risco é social e psicológico. As apostas entre jovens são frequentemente sociais – fazer apostas em grupo, partilhar boletins, competir entre amigos. Esta dinâmica social pressiona para apostar mais do que se apostaria individualmente, cria vergonha de admitir perdas e normaliza um comportamento que, para alguns, se tornará compulsivo.

O quarto risco, menos discutido, é a exposição ao mercado ilegal. Na faixa dos 18 aos 34 anos, a utilização de plataformas ilegais sobe para 43%. Os jovens adultos são os mais expostos a operadoras sem licença – e as consequências de jogar sem protecção regulatória, sem limites obrigatórios e sem mecanismos de autoexclusão são amplificadas pela idade.

Medidas de Prevenção – O Que Existe e o Que Falta

No final de 2025, o total de contas autoexcluídas atingiu 361 mil. É um número elevado – e indica que os mecanismos de protecção estão a ser usados. Mas a autoexclusão é uma medida reactiva: funciona depois de o problema se instalar. Para os jovens, o foco deveria ser a prevenção – e é aqui que o sistema tem falhas.

As operadoras licenciadas são obrigadas a verificar a idade no registo – mas a verificação baseia-se em documentos que um menor com acesso ao documento de um familiar pode contornar. A verificação devida diligência reforçada – como a validação presencial ou a verificação cruzada com bases de dados – não é exigida no momento do registo em todas as operadoras.

A publicidade a apostas nas redes sociais é, na prática, não regulada de forma eficaz. Os códigos de conduta existem, mas a fiscalização é limitada. Influenciadores promovem códigos de bónus com audiências maioritariamente menores, e as plataformas sociais não impõem restrições de idade eficazes na visualização deste conteúdo.

A educação sobre jogo responsável nas escolas é praticamente inexistente. A literacia financeira e a educação sobre risco – que poderiam incluir módulos sobre apostas – não fazem parte do currículo escolar de forma estruturada. O apostador jovem aprende a apostar com amigos, com influenciadores e com tentativa e erro – nunca com orientação informada.

O que falta, em resumo, é uma abordagem integrada que combine prevenção (educação), protecção (verificação de idade reforçada, restrição de publicidade) e apoio (acesso facilitado a ajuda quando o problema se manifesta). Quem quer perceber os mecanismos de protecção que existem para todos os apostadores, a análise sobre jogo responsável em Portugal aprofunda os dados e os recursos disponíveis.

A Prevenção Que Não Se Faz Hoje Paga-se Amanhã

Os 18% de menores que jogaram a dinheiro em 2024 são os apostadores de 2026. Os padrões que formam agora – com que frequência apostam, quanto arriscam, como reagem às perdas – definirão a próxima geração do mercado. Prevenir não é proibir. É educar, proteger e criar barreiras antes de os problemas se instalarem. E é mais barato do que tratar as consequências.

Um menor pode abrir conta numa casa de apostas em Portugal?

Não, legalmente. As operadoras licenciadas pelo SRIJ são obrigadas a verificar que o utilizador tem pelo menos 18 anos antes de autorizar o registo. No entanto, a verificação nem sempre é infalível – menores com acesso a documentos de familiares ou com identidades falsificadas podem, em casos pontuais, contornar o sistema. As plataformas não licenciadas, por sua vez, frequentemente não fazem qualquer verificação de idade.

Que medidas existem para prevenir o acesso de menores às apostas?

As operadoras licenciadas são obrigadas a verificar a idade no registo e a impedir o acesso a menores. O SRIJ fiscaliza o cumprimento destas obrigações. No entanto, a publicidade a apostas nas redes sociais não é restrita de forma eficaz, e a educação sobre jogo responsável nas escolas é praticamente inexistente em Portugal. As medidas existentes são sobretudo reactivas – focadas no bloqueio de acesso – e carecem de uma componente preventiva integrada que inclua educação e literacia sobre risco.